PRECISAMOS ACABAR COM ESSA MULHER

A DONA DA VERDADE
(Jorge Braga da Silva)

"...Conhecereis a verdade e ela vos libertará" (João 8:32).

Dona Verdade é uma mulher horrível.

Seus cabelos duros cobrem-lhe a cabeça desgrenhados e sulcados por falhas. Seus dentes podres também se desalinham nas duas fileiras enterradas nas gengivas grosseiras de onde exala um odor nauseabundo e constante. Seu corpo magro cobre-se de feridas purulentas. Dizem que as palavras dessa mulher são inconvenientes para todos, os bons e os maus. Não sei. Mas sei que Dona Verdade não se importa em agradar.

Por mim tudo bem. Nas mídias tenho milhares de seguidores que sabem quem sou. Sabem que defendo as minorias, a igualdade, a inclusão, a ecologia. Eu sou do bem. Mais do bem do que qualquer um por aqui. Então essa Dona Verdade não me mete medo. Tudo que faço é porque eu som bom. Porque quero um mundo melhor. Quero criar o paraíso na Terra.

Mas não são poucos os homens e mulheres, ricos e pobres, crianças e adultos, pretos e brancos, minorias e maiorias, progressistas e conservadores, influencers e anônimos, professores e alunos, todos enfim, que a evitam sempre que possível. É porque têm medo dela. Dona Verdade é essa mulher assediadora, inconveniente, desagradável e, sobretudo, impertinente e aferrada que nos tira o sono desde que o mundo existe. Ela se acha dona da verdade.

Algum tempo faz que nos reunimos para tramar um fim, acabar com essa bruxa vadia. E ela teve o que merecia. Nós a jogamos num profundo e escuro poço abandonado. Dona Verdade desceu em vertiginosa queda. Tentou agarrar-se as paredes limosas cravando as unhas no barro e nas pedras das paredes, mas sua queda só se deteve quando, num baque surdo, recheado de sons de ossos se quebrando, Dona Verdade chegou ao fundo do poço.

Não dava para vê-la toda estropiada lá embaixo, na escuridão do buraco, mas imaginamos, com muito prazer e gosto, que ela estava morta. Seu corpo despedaçado numa posição grotesca repousaria para sempre em silêncio. Isto era o mais importante. Sua língua viscosa nunca mais iria nos incomodar, atrapalhar nossos planos.

Fomos para casa satisfeitos e tranquilos. Jamais poderíamos imaginar que, lá no poço, Dona Verdade havia conseguido escalar as paredes. Seus longos dedos ossudos e sangrentos se agarrando as paredes escorregadias. Ela, não sei como, chegou à boca do poço e saiu pela abertura. E logo estava de novo infernizando, falando e revelando essas coisas que não queremos ouvir nem saber. E, mais importante, que não queremos que ninguém mais saiba.

Nós a jogamos de volta ao poço e lacramos a tampa. Não temos ideia de como essa maldita novamente escapou. E de todas nossas armadilhas ela escapou de novo, e de novo, e de novo. Dona Verdade sempre voltando para nos incomodar. Toda vez que damos um fim nela, a desgraçada fica algum tempo sumida, mas, de algum modo, ela sempre reaparece. E, pior, nos pega no pulo. Dona Verdade ressuscita toda vez que a matamos.

Eu já disse e repito: não sei como, mas precisamos acabar com essa mulher...


Então, o que você achou deste conto? Gostou? Qualquer que seja tua opinião, ela será valiosa. Então, por favor, deixe aqui seu comentário. Obrigado.

Comentários

  1. Tem pessoas que acham que podem mantê-la para sempre no poço, assim praticam os atos mais vis quanto podem e justamente contra aquele que confia, ai destes, entrementes o Criador afirma: "Pois nada há de oculto que não venha a ser revelado, e nada em segredo que não seja trazido à luz do dia (Marcos 4.22). Em seguida vem a condenação da traidora: Gálatas 6:7 Não vos enganeis: Deus não se permite zombar. Portanto, tudo o que o ser humano semear, isso também colherá!

    ResponderExcluir

Postar um comentário