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Diante de um caixão


Retorno post mortem


“Aqui os mortos são bons
Pois não atrapalham nada
Pois não comem o pão dos vivos
Nem ocupam lugar na estrada”
(Belchior canta em “Aguapé”)


Quando Juvan da Silva morreu, ele queria ir para o céu. Isso é bom, todos os bons devem ir para o céu. Porém, no caso específico, Juvan nunca foi exatamente um modelo de bondade.

E a morte dele — e assim costuma ser quase toda morte — não foi uma passagem abrupta de vivo para morto. Mesmo porque não é assim que funciona, ninguém morre instantaneamente. A não ser quando se morre de causas violentas. Não sendo este o caso, a morte vai se consolidando no corpo moribundo por etapas.

Na verdade, essa consolidação já começa quando se nasce, progride sem cessar ao longo da vida. Nesse processo, algumas partes do nosso corpo vão morrendo e, ao mesmo tempo, se regenerando; ou morrendo e sendo substituídas, se recompondo. Por exemplo, a pele, as unhas, os cabelos, os neurônios e demais células do corpo. Nossos corpos são tipo os rios, as águas sempre em transformação, sempre mudando, mas os rios aparentemente sempre os mesmos. De modo que, depois de certo tempo, todo nosso corpo foi completamente refeito, como se todos os dias partes de nós estivessem continuamente sendo clonadas, até que o corpo inteiro é substituído por outro corpo quase igual, só um pouco mais velho, porque certas outras pequeníssimas partes não ressuscitam mesmo; partes tão pequenas que nem percebemos, e seguimos em frente carregando as dores, os sonhos e esperanças de sempre. Não nos damos conta das mortes dentro de nós, tão íntimas e secretas. Até o dia que nos deparamos, aflitos, com a primeira ruga, o primeiro fio branco. Sinais que nossos genes egoístas têm feito bem o seu trabalho. Bem demais, para nosso desgosto.

***


Foi assim com Juvan. Mas, antes de morrer totalmente, enquanto ainda não estava na fase mais debilitante da doença, além da ajuda dos médicos e da ciência, não dispensou a ajuda dos especialistas em transcendência. Alguém capacitado a religá-lo desse mundo material até o mundo do outro lado: um pastor, um padre, um sacerdote, um intermediário de Deus, enfim um advogado do pó, para pleitear pelo cliente Juvan, filho de Deus como todos nós, descendente do remoto barro com o qual o criador moldou o primeiro ser humano, segundo dizem e escrevem em prosa e versos. Consolo para morrer não lhe bastava, queria recuperar a esperança, que outrora cultivara com certa fé e, às vezes, até mesmo certeza, quando acreditava razoavelmente que, num distante dia (que tomara estivesse bem longínquo), ao atravessar o portal dos mortos, do outro lado haveria uma nova vida para ele.

Na vida, Juvan nunca foi muito de ir a igreja. Na verdade era um cético, mas enrustido, porque expor certo tipo de ceticismo aos clientes é ruim para os negócios. Para os clientes glória-glória assumia-se um crente, mas, no íntimo, nunca se convenceu totalmente da existência de nada que fosse sobrenatural. Porém agora, encurralado pela morte, ele quer acreditar. O medo amolece a descrença. A dúvida abre pequenas fendas na realidade pelas quais a esperança se esgueira, escapa da vigilância da razão e, contra todas as evidências, busca o outro mundo no qual espera que a vida continue depois da morte inevitável.

Naqueles dias de dor, aproximando-se o fim da vida, Juvan apostou não no ceticismo, mas na fé, na crença que a morte não existe. Que é só uma passagem. Porque além de consolar, permitia a Juvan enfrentar a incerteza, o medo de perder para sempre as delícias que um homem rico pode extrair da vida, não importa quanto custem e quem prejudicará. E bem baixinho, como se temesse que ouvidos indiscretos captassem seus pensamentos, uma vozinha dentro de sua cabeça, aliviada pela frágil fé convenientemente ressuscitada no finzinho do segundo tempo, lhe dizia: “Ainda bem que essa passagem pode ser negociada”.

Negociar para ele é como respirar. Ocupou sua vida inteira só com negócios. Jamais se interessou muito por outras coisas. Nunca ajudou nem se interessou por alguém que não fosse lhe dar lucros. Mas quando o médico lhe disse que tinha um tumor canceroso e que morreria em breve, ele se apavorou. Morrer? Sem aproveitar nada da fortuna que acumulou trabalhando sem descanso? Não era justo, ele pensava em desespero.

O prognóstico médico era uma sinuca de bico, mesmo assim ele procura desesperadamente algum truque para escapar da situação aparentemente sem saída. “Sempre há um truque”, pensa Juvan. E o truque toma forma, aos poucos em sua cabeça, quando ele começa a lembrar-se da infância e do catecismo, quando lhe foi dito que “Se você se arrepender, nem que seja no último instante, não morrerá, vai morar no céu com Jesus”. Talvez esse fosse o truque, e se é um truque do bem que mal tem? Então se apega a ideia salvadora. E sendo quem era, logo pensou numa barganha com Deus. Foi quando, depois de décadas afastado de religião, começou a frequentar a IACORD, Igreja a Condutora ao Reino de Deus, e a aconselhar-se com o pastor Miller Falafalha.

O desfecho inevitável, em certo dia da longa agonia de Juvan, parecia mais iminente que nunca. Os empregados da casa, nervosos, mas não muito pesarosos, chamaram o médico. O médico veio, disse o que todos já sabiam, disse que só restava esperar, e foi embora. Chamaram então o pastor. O pastor veio, disse o que todos já sabiam, mas disse que ainda não era o fim. Melhor, era o fim aqui, neste mundo de lágrimas. Esta era a má notícia. A boa é que Deus reservava um lugar acolhedor para Juvan no outro mundo. O mundo que se seguia após este. Mas com algumas condições. E o pastor certamente as ofereceria ao moribundo. Mediante… bem vamos ver.

— Irmão Juvan, estou aqui. – Diz o pastor, quando chega ao leito do moribundo.

— É… o pastor… Miller…? – Juvan pergunta com voz fraca e trêmula.

— Sim, irmão. Você me chamou. Diga-me o que deseja.

— Pastor… o senhor tem certeza… que há vida… depois que a gente morre? – Pergunta, depois de reconhecer o pastor pela voz, pois em suas retinas idosas as imagens eram apenas sombras desfocadas.

— Sim, irmão. A graça de Deus e a sua fé vão lhe garantir o paraíso. Arrependa-se agora de seus pecados e segura na mão de Jesus. Pode ir em paz, irmão, para a sua nova vida.

— Eu... me arrependo, ... pastor. Mas… é só isso? É só eu me arrepender mesmo? Vou viver… lá… do outro lado?

— Sim irmão, pode acreditar. Breve você estará livre no paraíso, longe do drama deste vale das agonias, dessa vida cheia de provações por causa do império da matéria...

Segue uma pausa enquanto o enfermo luta para respirar, tosse e vira os olhos. Uma preocupação se esconde no íntimo do pastor.

— Irmão Juvan...? Lembra daquela nossa conversa... aquela do mês passado?

O pastor olha à sua volta para certificar-se que ninguém mais podia ouvi-lo.

— Transferiu a escritura da casa? — Pergunta o mais baixo que julga poder ser ouvido pelo homem em seu leito de sofrimento.

— Sim, pastor... Está tudo pronto... no cartório.

A voz do moribundo definha, soa quase inaudível. O pastor Miller, a contragosto, aproximou o quanto pode a orelha à boca retorcida arroxeada, disforme, que exala um odor fétido.

— Desculpe, irmão. Pode repetir, por favor?

— Já… tá tudo certo… no cartório. A casa… agora… é de Deus…

— Deus lhe abençoará com uma casa mil vezes melhor lá no céu, irmão Juvan.

Era o que realmente interessava ao pastor Miller Falafalha. Saber da doação prometida por Juvan há um mês, quando ele ainda era capaz de transformar suas vontades em resultados reais. E tendo a informação que queria, apressou-se a debandar daquele ambiente melancólico. Abreviou a conversa. Ao agonizane, despejou rápidas palavras de consolo cheias de incentivo a ir encontrar Jesus no céu. E assim que teve oportunidade saiu da casa, deixando Juvan morrendo sozinho e cheio de medo da morte. Homem velho, rico e sem amigos, com câncer em fase terminal.

Cumprida a repulsiva missão de misericórdia, corre para o cartório conferir as informações, foi verificar se a doação do imóvel estava legalizada. E de fato estava. “Favas contadas”, pensa o pastor. E trata de ir cuidar de outras ovelhas mais promissoras. Esquece Juvan da Silva. E este logo depois morreu. Foi depois de poucos dias relutando encontrar-se com Jesus no paraíso. Juvan, mesmo extremamente debilitado, ainda lutou como pode, reunindo as últimas e precárias energias que ainda estavam retidas em suas fibras envelhecidas e ressecadas.

***


Juvan morreu com alguma esperança de ir para o céu. Apesar de, no final da velhice, ter voltado para a religião e a consultar frequentemente o pastor, não se sentiu notavelmente mais crédulo sobre a existência de um paraíso, nem mais conformado do que antes com a inevitabilidade de ter que deixar para trás sua vida neste mundo. Seu retorno a religião não era mais que uma estratégia, a velha aposta de Pascal que ele, mesmo sem nada saber de Pascal, colocou em prática.

A doação do imóvel foi só mais um negócio na vida de Juvan da Silva. Ele e o pastor sabiam muito bem o que estavam fazendo, mas fingiam um para o outro a grandeza do mérito e altruísmo da negociação. Por dentro, Juvan reprimia insistentes centelhas de descrença. Ele acreditava mesmo era em negócios. Tudo tinha um preço, ele adorava dizer. Agora, em seu leito de morte, quando seus pensamentos se rebelam denunciando a hipocrisia bilateral ele os trancafia em algum quarto escuro da mente. Fingiam ser a doação da casa um grande gesto de coragem e desapego, um sinal, uma prova para Deus de sincero desejo de ajudar a causa da igreja. Se para Juvan a salvação era questão de negociar com um intermediário, um representante autorizado de Deus, para o pastor essas intenções não passavam de forma nenhuma despercebidas. Ele também estava no jogo, no negócio da salvação das almas. E que melhor negócio haveria no mundo? Um negócio no qual o cliente é enganado e ainda defende o enganador com unhas e dentes. Um negócio no qual nenhum cliente jamais poderá voltar para reclamar do produto ao vendedor. Mesmo porque, nesse negócio, se o produto não funcionar nunca será reconhecido que o problema é do produto em si, mas sempre que a culpa é do consumidor que não tem fé ou que a tem fraca demais. Nem na China negócio tão bom poderia ter sido arquitetado. Um negócio no qual o consumidor, inconsciente ou não, se torna cúmplice do vendedor para que este engane aquele. O “me engana que eu gosto”, encontra, neste caso, a máxima expressão da capacidade do ser humano para enganar a si mesmo na busca de alívio para seus tormentos e escusa para suas fraquezas.

***


Então, como já disse, Juvan morreu. E ao morrer, Juvan sente-se leve como um astronauta no espaço. Flutuando, seu corpo eleva-se para o céu enquanto vê, assombrado, lá embaixo, seu pequeno e pálido cadáver, quase sem mais carnes no corpo, ir ficando ainda menor, distanciando-se até desaparecer completamente. Ele subiu como se estivesse num estranho elevador de névoa luminescente.

Logo não havia mais elevador. Só Juvan subindo no meio dessa névoa de luminosidade suave que se estendia infinitamente em todas as direções. O silêncio é tanto que o aterroriza.

Depois a sensação de subir desapareceu. Tudo era igual de perto e de longe. Onde estava a Terra? Onde estava o céu? Ele se esforça para ouvir clarins tocando, mas um tempo incalculável passa e nenhum sinal, nenhum som, nada.

Um minuto passou, ou talvez um ano, dez anos, um milhão de anos, Juvan não sabe. Ele questiona. “Onde está Deus? Onde está o paraíso? E os anjos?”. Ansioso, procura no meio daquele nada esperando Jesus surgir, a qualquer momento, daquele véu de névoa.

Naquele mundo amorfo, nem o próprio corpo de Juvan parece existir. Só o pensamento é um tênue resto da existência dele. Mas quando nada mais resta que o pensamento e as únicas imagens do mundo são aquelas nos fluxos dos pensamentos, então se pode ficar rapidamente louco. Porque nestas condições tudo que resta ao homem é revisitar infinitamente todas as lembranças do que foi quando vivia no mundo. E quando tudo que se tem são só as lembranças, preponderam aquelas mais dolorosas, posto que são mais frequentes que as boas lembranças. Dizem que não existe felicidade, o que existe são momentos felizes. Poucos. No limbo de névoa, Juvan experimenta a dor indescritível de reviver todos os momentos dos quais ele não pode dizer que se orgulha. Mas não uma ou duas vezes, centenas, milhares, ou milhões de vezes talvez. Onde Juvan está, o tempo não tem pressa de passar. O tempo fez uma parada naquele lugar.

Então, “se não tem solução, solucionado está”, pensa Juvan, mas seus pensamentos não se constroem de imagens novas, pois nesse limbo onde está retido isso já não lhe pertence mais. Só lhe resta reproveitar imagens antigas, de quando ele ainda tinha sua vida. Talvez por isso seus pensamento sejam tão espiralados e confusos.

“Se aqui não é o céu nem Jesus vem me buscar, então, das duas uma, ou não existe céu, nem Deus, ou se Deus existe e eu não o vejo é porque talvez eu não esteja realmente morto. Talvez ainda não seja minha hora”.

“Pode ser que eu esteja tendo uma experiência de quase-morte”.

“Mas pelo que já ouvi dizer sobre pessoas que morreram por alguns minutos e depois voltaram a vida, muitas retornaram por um túnel de luz. E eu estou no meio desse nevoeiro sem fim. Aqui não há túnel nenhum”.

“A outra possibilidade é que talvez não exista nada mesmo depois que a gente morre. Mas, se não há nada depois da morte, como é que estou aqui? Ainda tenho meus pensamentos, logo ainda existo de alguma forma”.

“Mais provável é eu não ter morrido totalmente. Se for isso ainda tenho uma chance de voltar. Preciso encontrar o tal túnel de luz!

Mais um minuto se passa, ou um dia, ou dez anos, Juvan não sabe. Sua esperança não se torna real. É inútil. O túnel de luz não aparece.

“Terceira possibilidade: Talvez a morte seja isso mesmo, um eterno nada onde flutuam só os pensamentos de todos os mortos, um imenso cemitério só de pensamentos de mortos”.

“Essa não é minha quase-morte, é a minha morte completa e mais horrível do que eu poderia imaginar”.

Juvan experimenta a agonia dos pensamentos em revoada sem fim, uma agitação inquietante, um desassoguego profundo. Mesmo assim luta para não martirizar-se em vão remoendo sem cessar todos o erros que cometeu em toda sua vida. Pensou que talvez estivesse no inferno. Ou tendo restado apenas sua mente vagando no labirinto nebuloso, ela estivesse enlouquecendo. Então, para fugir da loucura, fantasia que escapou pelo túnel de luz e está de volta a vida na terra. Fica imaginando mil formas de como esganará o pastor Miller Falafalha quando voltar ao seu corpo e reviver. Seria sua mais doce vingança. Juvan esquece de sua cumplicidade na barganha do paraíso. Mas que paraíso poderia ser aquele? “Definitivamente, aquele pastor astuto me fez de otário”, ele conclui.

***


Algo estranho na neblina lhe chama atenção. Um tênue movimento, tipo giratório, uma espiral diáfana toma a forma de um furacão branco, como se fotografado por um satélite, uma espiral abrindo-se lentamente até tornar-se um... túnel.

Juvan quase não acredita no que vê.

“Um túnel! É exatamente o que eu preciso! Se eu puder descer por ele significa que sou mesmo um quase-morto. Não um total-morto preso neste reino embaçado. E aí poderei voltar ao mundo dos vivos e ao meu corpo!”

E antes que esboçasse qualquer iniciativa, ele é sugado para o interior do túnel. Aturdido, desliza como se estivesse num tobogã etéreo entre o céu e a terra. E o túnel também desce para algum lugar. Na mente de Juvan afloram lembranças, histórias que as pessoas contam, relatos de visões de anjos e encontros com Jesus ou com outras almas, de gente que passou pelo trauma da experiência de quase-morte. Este não tinha sido o caso dele, até o surgimento do misterioso túnel. Por isso, agora renasce-lhe a esperança. Quer acreditar que, independente da ausência de anjos, de não encontrar Jesus ou de não ter visto o paraíso, seu caso é um caso de quase-morte.

Sua raiva e desejo de vingança contra o pastor aumentam continuamente. “Como pude ser tão idiota” — Ele repreende-se severamente.

“É tudo mito, não há nada depois do fim da vida”. Ele analisa. “Não vi uma viva alma literalmente, nem anjos e, muito menos, Deus. O pastor mentiu, usou meu medo de morrer e meu desejo de transcender para aplicar-me um golpe”.

Outro detalhe das histórias de quase-morte que Juvan ficou sabendo: O iminente ex-morto sempre volta flutuando diretamente para o corpo. Ele entra no próprio corpo que, naquele instante, volta à vida. É uma espécie de reencarnação, mas só que no corpo dele mesmo. Corpo que fica bem pouco tempo morto. Então Juvan imagina que ele também, a qualquer momento, irá reincorporar-se. Em alguns instantes terá seu corpo de volta para continuar a chamar de seu.

“Quando aquele farsante do Falafalha aparecer na minha frente… O miserável, pensa que sou otário. Pois vai ter que me devolver tudo!”.

Porém foi diferente do que Juvan esperava. De repente ele se vê fora do túnel. O túnel havia desaparecido e com ele a neblina. Ele inspeciona os arredores, aturdido com a súbita mudança do cenário. Então reconhece o lugar. É o templo da IACORD! A “Igreja a Condutora ao Reino de Deus”.

Mas uma coisa não se encaixa: Onde está seu corpo? Ele não deveria ter reencarnado em seu próprio corpo que ainda deve estar quase-morto lá na mansão?

Pessoas e objetos vão se materializando em seu entorno, aos poucos. E agora pode ver muitos fiéis e ouvi-los entoando cânticos de louvor e adoração. Pode vê-los e ouvi-los, mas não pode ser visto nem ouvido. Tenta mover-se, mas também não consegue.

Diante da plateia está o pastor Miller. Juvan tenta gritar, insultar o pastor, mas é como se estivesse num daqueles agônicos pesadelos quando a boca se abre, os pulmões se comprimem e a garganta se esforça, mas nenhum som é produzido.

Os fiéis cantam com entusiasmo e emoção, as mãos erguidas acima das cabeças; das faces de alguns descem lágrimas em abundância e nos olhos carregam a expressão de hipnotizados. Estão cantando um dos refrões da música gospel preferida do pastor Miller:

“Irmão acorde,
Acorde, irmão acorde
Venha irmão,
Venha agora pra IACORD
Salva tua alma do perigo
Doe agora pra vida de verdade
Louve e dê mais do que tu podes
Que Deus retribui prosperidade”


O canto termina e o pastor começa a pregação exortando os fiéis a abrirem suas carteiras e bolsas e a serem generosos nas ofertas. Ninguém pode, ainda, ver o furioso recém-ressuscitado prestes a materializar-se entre a plateia e o pastor Miller.

O carismático pastor fala com voz macia e ao mesmo tempo levemente rouca que cativa a plateia. Começa com uma distração e vai enredando a audiência que não se importa ou não se dá conta dos erros de concordância nem do tom coloquial, às vezes quase vulgar. Ele prega:

— E eu digo prosperidade porque depois que eu ralei e vi que, mesmo sendo pregador ungido, andava numa brasília que toda vez que eu conto o povo dá risada, porque não é eles que andaram nela. Pense num carro atribulado! E tinha um apelido, era brasília ungida. Todo lugar que eu parava ficava uma poça de óleo no chão. O Senhor começou a falar ao meu coração que só existe uma maneira de ser próspero. A benção da prosperidade, aprendam isso hoje, Não vem lá de cima. Pergunto, vem da onde? Abra a mão direita que eu vou te mostrar. Se for homem, coloque no bolso. Se for mulher, coloque na bolsa. Vem daí! A prosperidade tá no seu bolso. Quando você prova a Deus que você tem coragem de tirar daquilo que você tem e entrega no reino, você recebe. A outra só dá sessenta, a outra dá cem. Jesus tá ensinando que o que importa não é quanto você ofertou, mas o que você oferta. Só que dez reais pra viúva faz falta. E dez reais pro empresário ele não sente nem cócegas. A oferta da viúva em breve vai gerar cem por um! Porque ela fez mais do que podia. Já o empresário vai colher bem menos. Vai colher trinta por um! É assim que funciona a lei da semeadura. Nessa noite eu vou lhe dar uma chance de ser abençoado. Pastor, e se eu não receber nada? Você sabe o meu endereço e me conhece. Pode me chamar de mentiroso. Quem crê que Jesus pode dar uma casa até o fim do ano? Um carro? Casar? Pagar as dívidas? A sogra ir morar em outra casa? Apavoraram, né? Agora aprendam, nesse quesito, a fé sem obra ela é morta. Não basta crer. Nesse quesito você tem que obrar. Você tem que ofertar. Abra a mão direita toda igreja, por favor. Coloque a mão no coração. Feche os olhos. Pai, eu tenho ministrado isso ao redor do mundo todo, e eu te conheço. Mais uma vez eu lhe peço, toca no coração dos seus filhos que aqui estão. Tem gente aqui senhor que está passando por um vento de humilhação e vergonha. Eu gostaria que neste momento, Senhor, mexesse no coração deles pra todos entregarem uma semente. Seus filhos que acreditarem na oração deste profeta neste momento e tiverem coragem de pegar dinheiro, cheque, cartão de crédito. E se tiverem coragem de pegar suas joias, eu convido esta igreja que está aqui me ouvindo agora, Senhor, a ofertar, porque esta oferta vai abrir a porta do milagre sobre a vida dele. Você crê? Então pegue a sua semente agora, por favor. Pegue a sua semente. Eu não acredito que você vai ficar roendo a unha de braço cruzado e mandando mensagem de SMS pelo seu telefone. Eu desafio os jovens agora. E quem não tem ai pede emprestado que sempre tem gente que é mais generoso. Pastor, eu posso dar um cheque pré-datado? Pode. Pastor, eu posso ofertar em cartão de crédito? (1)

Nesse momento um grito ecoa acima da ruidosa ambiência. É um grito assustador.

— Mentirosooooo!

Juvan consegue finalmente desenjaular o grito enclausurado como um leão indomável no fundo da garganta. O berro se sobrepõe às glórias, às aleluias e à música ambiente. A súbita aparição de Juvan, literalmente do nada, diante do pastor e da plateia, causa comoção e assombro geral. Todos se calam e reina o silêncio.

— Juvan da Silva! – Grita o pastor Miller.

— Surpreso em me ver de volta, pastor enganador?

— Juvan da Silva, você não devia estar aqui! Você está morto, irmão!

— Mas aqui estou eu, não é pastor? O senhor sabe por que estou aqui pastor? – Ele frisa bem as palavras “por que”.

Os fiéis estão agitados, mas em silêncio. A fantasmagórica aparição de Juvan provocou medo. De pontos indistintos da platéia, escapa um ou outro grito histérico de “Demônio!”. Todos esperam a reposta do pastor.

— Não sei não. Por quê? – Indaga Miller.

— Primeiro, pastor de araque, porque eu não morri, entendeu? Só tive uma experiência de quase-morte. Sabe o que é isso? Eu explico. É quando a pessoa morre somente por um tempo curto, mas logo em seguida volta à vida. A alma desce e volta ao corpo. É meu caso, eu voltei.

— Irmão Juvan, eu sei o que é essa tal experiência, mas e daí?

— Daí que agora temos um ajuste de contas, eu e você. É simples assim: Tudo que era meu, quero de volta. Eu cumpri minha parte, morri. Você não cumpriu a sua: nada de paraíso, nada de vida de pois da morte, nada de Jesus!

E Juvan não para, não dá tempo ao pastor:

— Cumpri a minha parte, pastor. Paguei certinho os meus dízimos, não paguei?

— Pagou sim.

— Comprei o prepúcio de Jesus que você vendeu na sua última campanha. Pra que era mesmo? Hummm… Ah, sim, pagar aluguéis atrasados de templos da IACORD. Comprei ou não?

— Comprou é claro.

— Doei minha casa pra igreja, não doei?

— Doou.

— Comprei uma lasquinha de madeira da cruz na qual Jesus foi crucificado, não comprei?

— Comprou, todo mundo aqui sabe disso.

— O senhor disse que a vida neste mundo era uma ilusão que o Diabo implanta em nossa mente, não disse?

— Disse, acho que sim.

— Disse que minha recompensa viria no paraíso da vida eterna, a verdadeira vida, a que vem após a morte do corpo carnal e pecador, não disse?

— Eu disse. Mas onde é que você quer chegar, irmão?

— Então, pastor Miller Falafalha, sua fala falhou. Por que, mesmo sendo por alguns minutos, eu morri. Então procurei, procurei e não achei vida nenhuma lá no Além? Só tinha névoa e mais nada. Não apareceu Deus, não apareceu Jesus, sequer um mísero anjo apareceu, como você me prometeu.

Aliás, vamos combinar, sua pregação é uma farsa. Confesse. Você está enganando o povo que não tem amparo social nenhum neste país, não tem a quem recorrer, só a um mentiroso como você. E você é uma farsa, porque morri e não vi nenhuma vida após a morte! Nenhuma!

Juvan grita tudo isso o mais alto que pode já que não dispõe de microfone como o pastor para fazer todos ouvirem o que ele diz.

Silêncio geral. Os fiéis todos estupefatos diante da cena bizarra. Miller está mudo, a boca despencada e o rosto atoleimado, bestificado. Todos olham para Miller, esperando uma resposta à altura das graves acusações. Dá para ouvir uma mosca voando. Ele procura desesperadamente uma saída para aquela sinuca de bico. Precisa ser contundente, matador, afinal era sua reputação em jogo. Porém nenhum argumento lhe vem à mente. Nenhuma grande réplica lógica nem mística, nem nada. Então diz o que lhe vem à cabeça:

— Juvan, o Diabo está te manipulando! Segure na mão de Deus! Você morreu de verdade. Você agora é um espírito sem luz precisando de orientação.

— Morri mas voltei. Eu já disse, foi experiência de quase-morte. Quase, ouviu bem? Voltei ao meu corpo para desmascará-lo!

— Que corpo, Juvan? Você foi cremado. Seu corpo virou cinzas!

— Como cremado? Como cremado? Eu fui cremado? Eu nunca disse que queria ser cremado!

— Bom, ai eu não sei. Só posso dizer o que aconteceu. E você foi cremado. — Diz o pastor fazendo cara de desinformado.

A voz do pastor chega a Juvan parecendo abafada, distante.

— Então, Juvan, se não há vida após a morte, e se você mesmo confirma que morreu, me diga como você está aqui, irmão, falando comigo diante de todos os fiéis? Será que você é o Juvan mesmo ou é um espírito maligno disfarçado querendo enganar os filhos do Senhor? — Grita o pastor voltando-se para a plateia de braços abertos, dramatizando a cena.

Como uma bolha de sabão rompida, Juvan desaparece. Evapora. Vira uma pequena fumaça que sobe espiralando em direção ao teto. A multidão alucina. Dezenas de vozes gritando “Jesus é Deus!”, “Deus expulsa demônios!”

Nunca na história do profeta Falafalha as ofertas foram tantas e tão generosas. Na verdade elas bateram um recorde até hoje não superado por nenhum outro ungido.

Miller Falafalha comprou um jatinho e várias mansões. E hoje vive entre temporadas de descanso nessas mansões espalhadas pela Europa e pelos Estados Unidos e turnês de pregações pelo mundo afora. Ele faz mais sucesso e ganha mais dinheiro do que qualquer astro mundial do roque ou do futebol. Tecnicamente ele é um ungido teologicamente próspero. Todas pregações dele terminam com o povo cantando em êxtase:

“Irmão acorde,
Acorde, irmão acorde
Venha irmão,
Venha agora pra IACORD
Salva tua alma do perigo
Doe agora pra vida de verdade
Louve e dê mais do que tu podes
Que Deus retribui prosperidade

Ouça o que diz o teu ungido:
Deus te retorna cem vezes mais
Do pouco que houveres ofertado
Se deres mais do que és capaz”.


***


“Eu sou o teu pastor, nada te restarás”


(Pastor Miller Falafalha, num intervalo de gravação de uma entrevista na TV, achando que os microfones estavam desligados)

FIM?


(1) Com base em uma pregação real acessada em https://www.youtube.com/watch?v=v_y0CZyME3s (20/02/2018)

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