Profanação bovina
Legião sonora suplicante,
Dobra joelhos reverente
À divindade no domingo,
Mas chega a segunda
Todo mundo se arrebenta.
Vaca das divinas tretas,
É tanto dente cravado em tuas tetas
E tanta boca cheia de pedidos
Todos feitos com ânsia e pressa,
Mas só ouvem teus ouvidos moucos
E só pedem tuas preces roucas
O que mais ao ego preza e interessa.
Ê, ê, ê, ê, ê
Vaca das divinas tretas,
Também quero dessa tua sorte.
Se é preciso, claro, eu acredito
Que de fato o teu condão exista
E azar dos fatos se eles são caretas
E nunca mamam leite em suas tetas,
Mas esse é o jeito da gente dar a volta
Nessa chata dona morte que a vida ela xereta.
Vaca das divinas tretas,
Você de fato é muito esperta.
Quem compra teu divino leite
Que a gente bebe só no post mortem
Jamais a este mundo volta
E reclama que não presta.
Ê, ê, ê, ê, ê
Que você ande pelas ruas solta,
Que viva e não pague imposto,
Que ostente os seus belos cornos,
Nada disso me faz contente,
Mas me aterra e me espanta
O teu negócio inteligente.
Vaca das divinas tretas,
Você vende e o povo compra
Teu leite num acordo tácito
Que se azedar ninguém reclama
Pra não ter a triste fama
De não manter acesa a chama.
Ê, ê, ê, ê, ê
De teu altar profano
Tira todo teu proveito
Do infortúnio dessa gente.
Manipula o transcendente
Como se dele fosse dono.
Vaca das divinas tretas,
Sempre esteve bem ciente
Do que o povo pensa e sente.
Que nada mais o povo aceita
A não ser teu anúncio arcaico
De um antigo divino plano
E pensa que a dúvida seja
Nada mais que um beijo herético
Da boca suja de um poeta cético.
Ê, ê, ê, ê, ê
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