PASSA CACHORRO

Água que só afoga pobre.

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PASSA CACHORRO
(Jhorge Braga)

Já me disseram em tom de brincadeira
Que na vida tudo é mesmo passageiro
Menos o cobrador e também o motorista
Menos a buraqueira procriando sobre a pista
Menos o sangue descendo a ribanceira

Miau, quando eu morrer quero ser um morto bom
Desses que não andam em plena escuridão
E não gritam nem fazem outro som
Nem lotam porta-malas de barulho estridente
Que chamam de música e a tocam para a gente
Nas altas horas de nossas cansadas madrugadas

Um megaton de som de potência calculada
Decibéis tirânicos que nossa paz não vale nada
O mau gosto só dá gosto quando ele é imposto -
Aos nossos ouvidos todos - forçado a contragosto

Os cães ao vivo se acasalam sem nenhum labéu
E envergonhadas nuvens passam depressa pelo céu
Mendigos acordam no piso da calçada
Aos sonoros passos de gente apressada
De pés calçados em seus sapatos caros

Os loucos vivem pouco, mas vivem como querem
O resto vive aos poucos do jeito que puderem
Vivem acreditando que vivem a própria vida
Mas cada qual vive a vida que lhe derem
Vivem a vida concedida pelos donos do poder
E só se pode nessa vida fingir não perceber

Os cães ladram enquanto a Via Láctea passa
E nada sabem do que se passa nas estrelas
E menos sabem seus donos sapientes
Como fazer almas serem realmente sorridentes
E há milênios decretaram que se a alma falha
Filha é da fraca fé que perde a batalha

O tempo ruge enquanto passa a tempestade
E a chuva molha nossos pratos de comida dura
Que comemos com os joelhos dentro d’água
E o cachorro morto flutuando sob a mesa pobre
Vertemos lágrimas sobre uma vida afogada

E do lado seco do alto da cidade
Homens bons assistem sem fazer nada
Esperanças submersas nas casas inundadas
Crianças choram por não entenderem essa parada


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