Cão de aço
E vem aqui o vento
E vai-se embora o Sol.
Se meu corpo sente frio,
Não menos sente o cão
Na dureza deste chão.
E sobre a dureza do chão,
Que as patas do cão pisam,
Sustenta-se o corpo magro,
Cheio de olhares vagos...
E meu olhar vai e vagueia
Pelo cão de figura feia,
Que então me faz lembrar
De um vago passado cão
Em minha vida a vaguear.
E vem aqui sereno desta noite
Adulada por frígidas estrelas
Ferindo pele e couro o frio açoite
E o cão não pode compreendê-las.
Cão de rabo desanimado,
De orelhas desabadas,
O torto corpo pela sarna devorado.
Sarna insana come a pele esfarrapada.
E vem aqui tristeza à tona
E consome o que me resta,
Que no cão fiel não falta,
Pois nunca ao dono abandona.
E vem aqui o frio
E anestesia a longa madrugada
Até que os corpos sintam nada,
O meu e o do cão bravio.
E vai embora a noite
E de volta vem o dia.
E, quando o dia chega,
Denota ruidosos sons
Sobre corpos congelados
Na calçada enrijecidos.
E repousa o cão a pata
Sobre minha mão bruta.
E vem aqui a luz
E desce a luz do vasto espaço
Que reluz intensamente.
E fui subindo lentamente
Ao lado de meu cão amado,
Meu amigo cão de aço.
Subimos de elevador alado,
Saímos da vida sem lamento
Para entrar no esquecimento.
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