A caixa de almas
“Eu é que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada
Cheia de dentes
Esperando a morte chegar”
(Canção Ouro de tolo, de Raul Seixas)
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada
Cheia de dentes
Esperando a morte chegar”
(Canção Ouro de tolo, de Raul Seixas)
Fiquei imaginando um avião banal que cruzasse, efêmero, o espaço aéreo da favela. Não em uma noite quente assim, prestes a perder o controle de irados ventos e transbordar chuva das nuvens. Errei feio ao ceder ao primeiro impulso. Enveredei neste labirinto de ruas e becos sujos, escuros e sinistros. O pior é que pressinto a presença de sombras traiçoeiras esgueirando-se em cada canto.
O alteroso executivo possível, à luz de um claro dia, dentro do seu pressurizado avião, poderia, casualmente desinteressado, lançar um olhar de curiosidade pela janela de seu jato empresarial. E veria, lá embaixo, uma desengonçada, triste e feia favela, proliferando-se aleatória, feito uma colônia amoral de bacilos, sobre a face enferma da terra. Mas na calada da noite as coisas se transfiguram.
Dentro da noite, o maléfico se camufla e pode parecer inofensivo; a mentira e a verdade embaralham-se, confundem-se, e o que é ilusão parece dado como certo. De dentro de seu avião elegante, o executivo veria todas as favelas politicamente corretas. Veria apenas e tão somente os fulgores, através das noturnas trevas, da iluminação elétrica das ruas, das casas e dos prédios. Lá do alto, as luzes, envoltas no manto democrático e justo da noite, seriam brilhosos diamantes salpicados indolentemente sobre um só manto negro. Desse alto ponto de vista, essas comunidades, singulares constelações esfarrapadas, como se do céu para a terra houvessem precipitado, brilham suas lâmpadas, cheias de aparente igualdade, como se livres dos dramas e das atrocidades infames que se revelam à luz do dia, assim que o sol nasce no horizonte. Podem os privilegiados darem-se ao deleite dessa visão romântica. Podem os famosos do mundo visitarem essas ruas estreitas, subirem as escadas do emaranhado e admirarem-se de seus becos, da cultura da favela e, depois, embarcarem em seus aviões reluzentes de volta aos seus mundos desenvolvidos. Podem.
Mas eu não. Aqui, ao nível rasteiro e real, são bem diversos os meus pensamentos. Dirijo tateando o rumo e me autocriticando pela imprudência. Entrar na favela a noite? Isso não foi muito inteligente... - Penso.
Por que ando tão descuidado ultimamente? Ando pisando na bola desde que uma cigana leu na palma da minha mão o fatídico destino gravado nas linhas. Luto sem descanso, desde aquele dia, contra esse destino que não aceito. Não há destino. Eu faço meu destino. Tanto concentro minhas energias nessa luta que minha mente fica esgotada. Ela me envia sinais de alerta na forma de erros que cometo, um aqui, outro ali, mas eu, teimoso, continuo.
Foi assim que, num impulso, telefonei para uma tal Tel..., Telma..., não lembro bem o nome, mas tenho aqui no bolso um recorte de jornal com o anúncio dessa senhora, que se autoproclama vidente e é moradora aqui nesta favela. Combinamos uma consulta às nove horas desta noite, único horário disponível. Ao telefone fomos breves, não entramos em detalhes. Temos nossas horas comprometidas nas correrias da vida.
Agora, dirigindo por este aglomerado confuso de ruas e becos sem saída, meu carro, hesitante e indeciso, parece embriagado pelo etanol do próprio combustível.
Não bastasse a iluminação precária, há essa metástase de imensas nuvens escuras, tenuemente contrastando com o céu mais claro ao fundo. Trovões e raios detonam o céu noturno de onde desce a quentura, pesada e úmida, denunciando a iminência do dilúvio.
Paro o carro por um instante. Insegurança, indecisão, dúvida. Noite adentro se diluem as bifurcações e cruzamentos das vielas longas e estreitas, mais indistintas quanto mais distante meus olhos sondam. Pressinto o perigo espreitando. Sinto a adrenalina no corpo como se fossem os meus outros tempos. Os sentidos captando qualquer pequeno movimento, qualquer mínimo ruído.
Meus pensamentos, sem eu querer, vagam para uma época não muito distante. Eu estava em ação e, certamente, não cometeria esse erro primário de cair nessa situação taticamente desvantajosa. Mas depois que parei perdi o traquejo. Hoje o instinto se acomodou, adormeceu nessa vida tranquila longe da rotina do perigo. Acho que enferrujei.
Acho não. Certamente deixei de ser tão bom quanto nos velhos tempos, quando sempre alguém me procurava querendo que alguém morresse. Não que o mercado minguou, que ninguém mais queira a morte de outro, ao contrário. O mundo não muda em sua essência, fica só parecendo diferente. Mas isto é outra história e agora é tarde. Tenho uma situação aqui exigindo respostas rápidas.
A adrenalina destrambelha as noções do possível e a gente faz o impossível. Nesse momento, é o que me resta, então vou em frente. Pego o recorte de jornal, acendo a luz interna e confiro o endereço: Rua das Magnólias, 13.
Padrões são os desejos da razão. São necessários ao cérebro sob pressão, pesquisando ordem naquela confusão de becos insalubres surpreendidos pela súbita claridade dos indiscretos faróis do carro.
Desço o vidro do veículo e tento discernir uma direção na profusão de ruas caóticas e barracos cercados por lixo nas calçadas. Subitamente um ruído, um movimento ameaçador. Suponho um inimigo oculto prestes a atacar. Barulho de latas rolando e um vulto enorme salta de um beco. Mal pude vê-lo desaparecer entre um velho sofá apodrecido e ralas moitas secas, restos de um lugar que uma vez sonhou ser um jardim. Depois da adrenalina, avalio a esquiva sombra em fuga. Vejo que superestimei um gambá ou, talvez, um gato mais assustado do que eu. Acelero o carro e vou em frente na falta de opção melhor.
O medo é bom quando a gente controla. Confesso que, muitas vezes, senti este bicho querendo tomar conta. Mas sempre eu segurava a onda. Botava cabresto nele e fazia o que eu tinha que fazer. Eu estava sendo pago, era o meu trabalho. Se um cliente queria alguém morto, problema deles. Nada pessoal. Fazia meu serviço conforme o gosto de quem me contratava.
"Quero que ele sofra bastante antes de morrer, aquele desgraçado", dizia alguma esposa, cheia de ódio, contratando a morte do marido.
"Traga-me a orelha dela" exigia-me uma garota abandonada pela namorada.
"Não quero que ele sofra", um dizia.
"Quero que ela saiba que foi eu que mandei", outra dizia.
"Não quero saber dos detalhes, apenas faça".
Em minha cabeça ainda ecoam essas vozes sanguinolentas dos antigos clientes.
Mas isto é coisa do passado, era o que eu fazia. Nesse ramo você tem que atuar continuamente para não perder o jeito. Hoje, perdi um pouco de habilidade. Aposentei-me já há alguns anos.
Sacudo a cabeça, procuro pôr ordem nos pensamentos, concentrar-me na situação. O tempo, a noite, a favela desordenada, tudo isto dificulta localizar o endereço da vidente, mas piora se meus pensamentos viajam na maionese do passado. O passado passou, não interessa mais.
Procuro alguma placa de rua e nenhuma aparece.
Merda! Nenhuma rua tem placa. Por que não comprei aquele maldito GPS? – Penso.
Numa parede, algum cidadão local de boa vontade escreveu em vermelho-escorrido: "R. das Magnólias". Eu a vi de relance. E meu carro, no instinto, já deu uma guinada mais rápido do que meu próprio eu. E estamos finalmente na rua das Magnólias.
Rua das Magnólias, número 13. Onde está o 13... onde está o 13...?
Ao longe, uma lâmpada suja, piscando num poste torto, ilumina vagamente uma fachada mais suja que a própria lâmpada e, ora sim, ora não, aparece o número 13 de latão, tomado pela ferrugem, ao lado de uma porta azul-descascado, de cujo interstício com o piso vaza uma faixa de luz amarela, parecendo um pus viscoso e fluorescente. Estaciono o carro. A sorte parece ter mudado a meu favor. Deve ser esta a casa da vidente.
Não tem campainha. O toc-toc que fariam os nós dos meus dedos ficou no vácuo, insonoro. A porta velha e torta inesperadamente abre-se. Um rangido monótono-trivial e aparece o vulto indistinto de uma mulher baixinha e obesa. A obscuridade que vaza do interior da casa envolve o corpo dela em pé, estático e calado à minha frente. Exala um perfume, um aroma agradável de ervas que excita com prazer meu olfato.
O aroma vem dela ou do interior da casa?
— Boa noite! A senhora é a Dona...
— Telina – Ela complementa, de imediato.
— Isso! Dona Telina, sou o José da Silva, agendamos nesta hora. – Faço um pequeno sorriso de surpresa, pois imaginara a mulher com uma aparência bem diferente.
Um vento fresco, turbilhonado pelo avanço do temporal em formação, extirpa da noite os últimos resquícios de mormaço do dia e, de passagem, brinca com nossos cabelos e roupas.
— Entre, José - Diz a mulher com voz mais macia que as sombras espreitando por detrás dela.
Em silêncio acompanho a mulher até o centro da sala imersa em veludosa semiobscuridade. O vento ficou lá fora batendo à porta, querendo entrar também. Uma luz desanimada e preguiçosa pulveriza-se e cai de uma lâmpada de filamento, obsoleta e aracnídea, pendurada ao teto por um arame sujo e retorcido.
Ah, agora percebo que, na verdade, o aroma vem do ambiente.
Sim, vem do ambiente, mas como este acha-se há séculos submetido a umidade e ao mofo, os cheiros misturam-se e, logo, tornam-se desagradáveis.
Sentamo-nos frente a frente. Entre nós, uma velha e vacilante mesa de madeira. Sobre ela apenas uma pequena placa de vidro e um cinzeiro pesado que esmagam uma singela toalha rendada retangular, cujos vértices desabam-se pelas bordas, como as águas congeladas de uma cachoeira estática e suspensa no ar. O aroma se desprende de incenso queimando em algum canto da sala. A fragrância está no ar, volúvel, volátil e invisível.
— Então, José, em que posso ajudá-lo?
— Dona Telina, costumo ser direto nos negócios e, para ser sincero, não tenho certeza que a senhora pode me ajudar. Como vou saber se a senhora tem mesmo os poderes que alega no seu anúncio de jornal?
O questionamento sem rodeios, curto e grosso, não altera um milímetro da expressão no rosto da mulher. Enquanto ela me olha tranquila, eu penso desconfiado:
Nesse universo sobram impostores e fraudes.
Então ela responde como se recitasse.
— José da Silva, nome tão comum. São tantos os josés do mundo. Você é mais um josé, mas, há pouco tempo, você foi muito diferente, foi um josé fora da regra, uma exceção. Sua presença, para certas pessoas, significava... morte. Hoje sua face mudou. O que uma cirurgia plástica não faz? Você queria ser um josé qualquer, mudar o rumo da sua vida, estar no seu feliz anonimato josefino, gozando a vida no sossego. Tudo ia bem, mas algo aconteceu, algo que o aflige e o trouxe hoje aqui. Diga-me, o que a cigana revelou que tanto lhe atormenta?
Sinto um frio visceral como se fosse uma imensa solitária, um verme de gelo agitando-se no meu intestino atormentado por uma droga ingerida para expulsá-lo. Essas palavras da mulher realmente nunca esperava ouvir. Ela acertou em tudo, até na vidência que tirou minha vida fora dos planos que tracei. Coisas que só eu poderia saber. Sou um profissional da discrição, do silêncio. Sou de pouco falar e mais observar, mais agir. Um matador não deve deixar rastros por onde passa, e eu nunca deixei, por isto sobrevivi àquele mundo mortal.
Nasce uma esperança, quase uma certeza de que a vidente tem de fato poderes sobrenaturais. Talvez pudesse mesmo resolver o meu grave problema.
Ela acertou também na cirurgia plástica que fiz quando abandonei minha carreira de matador. Hoje meu rosto é totalmente diferente, só não mudei de nome. Única herança dos meus pais, meu nome de guerra, fiz questão de conservar. Para mim é muito, é orgulho e símbolo de respeito, lembrando minhas raízes, dizendo a mim mesmo que nem sempre fui um assassino por contrato. Nome simples e banal, uma conexão invisível a um tempo que me traz saudades.
Mais confiante, coloco o recorte de jornal sobre a mesa para que ela possa ver.

Aponto a terceira linha.
— Por favor, dona Telina, o que exatamente a senhora quer dizer com: "Vejo pessoas, datas e lugares para o sucesso na sua vida"?
— Ah, esse é meu dom. Ou minha especialidade, se preferir. Datas, dias, anos, horas e lugares onde você deverá estar para conquistar, para ter sucesso, para realizar sonhos... E as pessoas que serão amigas, que poderão ser úteis, ou as que serão obstáculos... Enfim, isto é o que faço melhor.
— Bom, então acho que estou falando com a pessoa certa.
— Talvez. – Ela simplesmente responde – Depende do que você quer. O que você quer José da Silva?
— A senhora acertou. Realmente uma cigana disse algo sobre meu futuro que se tornou o meu tormento. Ela previu que eu teria apenas mais um ano de vida. Mas não conseguiu ver detalhes sobre minha morte nas linhas das minhas mãos.
— Limites, meu caro José, limites. Todos temos os nossos. Aliás, geralmente as ciganas desconversam quando o futuro do cliente é ruim. Elas revelam mais as coisas boas.
— Lembro que ela ficou muito perturbada ao ler a minha mão. Não conseguiu disfarçar. Então a forcei a dizer a verdade, fosse qual fosse que via em minha mão.
— Bem, ao que parece só lhe resta resignar-se com seu destino. Destino é destino, se a gente muda é por que não era destino, era possibilidade. Mas quem pode saber? Ainda assim, diga aí o que realmente você espera de mim.
— Na verdade, acredito que mesmo o destino pode ser mudado, tenha o nome que tiver. Ela fez a leitura dela. Mas uma segunda opinião sempre é bom a gente ter.
De uma janela atrás das pesadas cortinas da sala, um clarão rápido entra e ilumina brevemente a parede. Segue-se um trovão que se dissipa na distância do céu noturno. A temperatura é agradável, mas o aroma de incenso misturado ao cheiro antigo da sala torna-se aos poucos um poderoso emético. As cortinas abraçam-se ao vento que entra e dançam no escuro por um segundo.
Telina estende os braços curtos sobre a mesa, abre as mãos gordas com as palmas voltadas para cima enquanto flexiona os dedos, convidando-me a pousar minhas mãos sobre as dela.
— Coloque suas mãos sobre as minhas, por favor. - Ela confirma.
Pouso minhas mãos sobre as dela, palma contra palma. Ela fecha os olhos e inclina a cabeça. Permanecemos em silêncio por algum tempo. Subitamente ela estremece, abre os olhos e me encara como se diante do próprio diabo. Devagar retiro as mãos.
— Você veio aqui para descobrir como enganar a Morte! – Ela exclama, incrédula.
Depois sorri enigmática. Sorriso amplo. Percebo, brevemente, um dente recapado a ouro, que logo oculta-se atrás da seriedade retomando a posse do rosto redondo. Na semiobscuridade da sala, pelos cantos e por portas de armários entreabertas, esgueiram-se arredias sombras que não sei se são reais ou a minha imaginação.
— Diga-me, Dona Telina, a cigana estava certa?
Totalmente sem pressa, ela acende um cigarro, dá uma tragada tão longa que a luz excitada da brasa ilumina-lhe quase toda a face inquisitiva. O aroma do fumo desperta-me desejo de nicotina. Certos antigos hábitos podem ser reprimidos, mas nunca são totalmente eliminados.
Vício desgraçado! Depois de tantos anos, basta o cheiro do cigarro que já volta a vontade de fumar.
Lá fora, desaba uma chuvarada. A vidente prossegue:
— Quanto a previsão da cigana...
Faz outra breve pausa, olha a fumaça subindo rumo ao teto. Eu espero, ansioso e tenso.
— ... que você irá morrer daqui a um ano ... Tenho más notícias. As energias revelam, sem qualquer dúvida. Foi claro e nítido. Vi seu nome, José da Silva, inscrito na lista da Morte. Vai ser dentro de oito meses, pois quatro já se passaram desde então.
Isto é uma punhalada que mata minhas últimas esperanças.
Um trilhão de imagens de rostos mortos emergem em minha memória. Eles riem do meu destino. Que riam, também estão todos mortos! Quanto a mim, aposentei-me jovem, rico e com uma bela vida pela frente, depois de muito trabalho duro. Pistoleiro, assassino de aluguel? Sim, mas profissional competente. Só trabalhava para quem podia pagar-me muito bem. O serviço não era barato, mas se o cliente dizia "sofre", o desafeto sofria. Se dizia "sem dor", então não doía. Se dizia "rápido", a vítima nem percebia. Depois de tanto zelo e dedicação, essa maldição agora vem atrapalhar meu desfrute. Não é justo! Sou um homem bom, fiz o meu trabalho com profissionalismo! Todos meus clientes estão satisfeitos.
Porém, desde que aquela cigana revelou essa trama do destino, minha vida tornou-se um inferno. Agora só uma ideia martela minha cabeça dia e noite. Tenho que encontrar uma forma de sair desta sinuca. Dar uma volta no destino. Que droga! É justo que agora eu aproveite a vida. Ou todos que matei morreram em vão?
Foi há dois meses que tive a ideia. Só havia um jeito, era preciso enganar a Morte! Mas como? Dizem que ninguém consegue. Porém não é do meu costume me entregar fácil não. Por isso, quando vi o anúncio da vidente no jornal, achei que ela poderia ajudar, dar alguma ideia pelo menos. Ainda mais que eu não conhecia nenhum especialista em enganar a Morte. Tinha que ser alguém que pudesse sondar os passos dela. Afinal, eu e a Morte, de certa forma somos colegas. Eu sei como é esse negócio. Para matar alguém você precisa se antecipar em tudo, entende? Precisa saber onde o alvo costuma ir, com quem anda, que rotina segue, essas coisas. E da mesma forma, para escapar de um matador você precisa também antecipar cada passo dele.
— Senhor José da Silva? – Ouço distante a voz da cigana.
Balanço a cabeça para emergir do mundo dos meus pensamentos.
— E como vou... morrer? Preciso saber. Para me preparar de alguma forma.
— Tem alguém que é um falso amigo seu. Captei porcarias que ele impregnou no seu campo de energia. Ruídos sujos. Coisa séria, muito negativa, muito opressiva.
— Amigo?! Amigo, amigo não tenho. Quem chegou mais perto disso foi o... Mas o que ele tem a ver?
Um clarão invadiu a sala e pregou-se no rosto inexpressivo da mulher. De perto e de longe, trovões rugem no estômago líquido da noite. A umidade não se detém, atravessa as paredes mofadas da sala velha desbotada e invade até meus ossos.
— Sinto a energia das pessoas, dos lugares e tempos. Eu o vi na sua morte. E ele estará lá quando acontecer, com um grande revolver niquelado, atirando em você.
Revolver niquelado? Que matador usaria um revolver tão chamativo? Só pode ser o Bizarro, antigo parceiro em alguns pacotes daquele tempo. "Pacote" era como chamávamos quem tínhamos que matar. Jamais o considerei de verdade como amigo, embora ele assim gostasse de declarar-se. Mas sua alma invejosa extravasava o corpo. Era visível, ele não conseguia dissimular. Nunca baixei a guarda. Parceiro duas vezes apenas e já foi muito para o meu gosto. Um dos meus princípios era trabalhar sozinho. Mas o Bizarro também fora do meu tempo de infância e, por isso e outras conjunturas que não vêm ao caso, acabei abrindo essas únicas exceções.
— Deve ser o Bizarro – falei – um cara sempre cheio de negócios mirabolantes que nunca deram certo. Vive devendo para agiotas. Hora dessas vai acabar comendo grama pela raiz... Só ele seria capaz de me rastrear.
— Senti e vi através do toque. Mas a visão foi muito diluída, parece que faz tempo que você não tem contado com ele, não é?
— Mais de dois anos. Bom, o Bizarro é o tipo que venderia a própria mãe pra manter sua vida de vícios, mulheres, viagens e outros caprichos caros.
— E agora você virou a caça e ele o caçador.
— Disse tudo! Um dos meus antigos clientes deve tê-lo contratado. Queima de arquivos, sei coisas demais de muita gente importante. De presidentes a prefeitos, passando por juízes e empresários poderosos.
— E ele vai acabar te encontrando.
— É verdade, mesmo tendo feito tudo que era preciso pra não deixar pistas. Evaporei. Só não troquei mesmo de nome. Nem precisa. José da Silva! Tem nome mais comum no mundo? O que tem de homônimos... Tem tanto que isso até serve de proteção. Eu simplesmente desapareci sem deixar rastros. Nem pra ele contei quem eu seria, ou pra onde iria, mas o Bizarro é bom, é muito bom. Fui seu professor, ele conhece minhas idiossincrasias. Se quiser acabará me descobrindo, é claro. Eu mudei de vida, mas ele continua o mesmo. Ele gosta de matar.
A mulher fica em silêncio, soprando fumaça para o teto.
Levanto-me enquanto coloco mil reais sobre a mesa. A vidente olha-me com um sorriso estranho, sem parecer importar-se com o dinheiro.
— O único que se dizia meu amigo é justamente quem agora está me caçando! E que falta de ética. É desprezível um matador de aluguel aceitar serviço contra um colega de profissão. Ainda mais aposentado. Mas é melhor assim, põe as cartas na mesa e esclarece as coisas. Sabendo quem é quem, o problema fica mais fácil de resolver. Mato o Bizarro antes que me mate. Um lado bom disso é que já queimo um imenso arquivo todinho de uma só vez!
— Acha que é simples assim? - Ela pergunta fazendo cara de mistério, inclinando-se um pouco mais para trás na cadeira.
— E não é?
— Não vai funcionar. - Diz a vidente tirando um novo cigarro do maço.
Ela ergue-se da cadeira com o cigarro entre os dedos e pergunta:
— Quer uma cerveja?
— Por que não vai funcionar? – Ignoro o convite para a cerveja.
Ela não responde, vai a cozinha e logo volta com duas cervejas e o cigarro já aceso pendurado na boca. Suponho que uma das garrafas fosse para mim.
— Eu não bebo enquanto trato de negócios. – Apresso-me a informar e ando lentamente na direção da porta de saída.
Ela não liga. Põe as cervejas sobre o pequeno vidro quadrado que protege a mesa de madeira da umidade e senta-se. Seguro a maçaneta e, fazendo um gesto discreto de despedida, olho para ela.
— Não vai funcionar porque, aceite ou não, é o seu destino. - Ela diz tamborilando levemente sobre a mesa e olhando fixamente para mim. A fumaça do cigarro sobe lenta e helicoidal fazendo carícias no ar.
— Mas o que vou fazer, ficar "com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar"? Tenho que fazer alguma coisa, tentar algo, pelo menos. Não sou exatamente um tipo passivo. – Largo a maçaneta e volto-me totalmente para a mulher.
— Seu nome está na lista da Morte. Quem está nessa lista está frito. E você não conseguirá matar o tal do Bizarro se o nome dele não constar.
— Certo, já entendi. É uma sinuca de bico. Mas não é a primeira que enfrento na vida.
— "Pra tudo tem um jeito, só não pra morte". – Cita a vidente.
— Ruim para os mortos, pois eu ainda estou vivo.
— Olha, é o seguinte - ela interrompe o que dizia para mais um gole de cerveja, devagar, sem pressa – Eu não vou mentir pra você, dizer que pode escapar da Morte e tal. Não vou te dar fórmula nenhuma embrulhada em belas e falsas esperanças. Não trabalho assim. – O olhar dela perde-se, vagando entre pontos indeterminados dentro da penumbra do ambiente.
Fico em silêncio esperando a conclusão.
— Sinto a energia das pessoas, dos lugares e dos tempos. E só. Posso até conseguir alguns detalhes da situação que poderiam ser úteis pra você, se você faz questão de lutar contra o destino, mas aí fica por sua conta. Quem sabe você consegue, afinal neste mundo louco que vivemos hoje...
— Certo, continue. – Incentivo-a.
Volto a assentar-me à mesa.
— O mundo tem sete bilhões de almas encarnadas. – Novo silêncio breve. Depois prossegue falando enquanto aspira com deleite a fumaça do cigarro.
Fico invejando o prazer dela, do qual me proibi. Livrei-me do vício há muito tempo, mas, fumando ou não, parece que vou morrer antes do tempo de qualquer jeito.
Ela prossegue:
— Os tempos mudaram e pra pior no caso da nossa companheira fiel, a Morte. É muita gente morrendo todos os dias, muita alma pra levar. Mesmo pra Morte é muito trabalho. Há dias que sua caixa de almas pesa demais, muitos são os pecados das almas desencarnadas. E as listas? São tantas que a Morte se atrapalha.
Olhei curioso para Telina.
— Caixa de almas? Isso é uma metáfora?
— Não, é uma caixa real. Ela vai recolhendo as almas e guardando numa caixa.
Sinalizo que entendi fazendo movimentos com a cabeça. Ela continua.
— Hoje em dia, o esquema da Morte teve que mudar um pouco.
Telina sofre um acesso de tosse. No cinzeiro, a fumaça do toco do cigarro tem uma súbita convulsão com a corrente de ar produzida em obediência as leis da mecânica dos fluidos. Fico esperando que ela se recupere. Assim que se alivia, ela desobstrui a garganta sorvendo mais um gole da cerveja gelada.
— Mudar como? - Pergunto sem entender onde exatamente a vidente queria chegar com aquela conversa longa e enigmática.
Soa outro trovão. Ouço o barulho da chuva que persiste. É o oceano atmosférico que está sendo despejado das nuvens depois de, na forma de vapor, ter sido arrastado, talvez a contragosto, até as alturas, onde condensou-se no extenso céu.
— Adaptar-se aos novos tempos. Hoje em dia, temos muitas opções pra tudo, até nas formas de morrer, e morre-se muito neste planeta. Morre-se do jeito tradicional e também de zilhões de inovações mortais.
Porém a Morte é uma só, até hoje a mesma, desde que o mundo começou. O problema é que a Morte não morre nem se aposenta como você. Ela está sobrecarregada de serviço. Exigem que ela seja focada, criativa e multitarefa. Tem que atingir metas, sabe? O ceifador gerente cobra muito e ouve pouco ponderações da morte. Terceirizar alguns serviços? Nem pensar. É a tradição. É assim que tem que ser até o fim dos tempos. Para que tudo se cumpra fielmente. E o serviço precisa ser feito. Não importa como, as pessoas devem morrer no dia, na hora e no local previsto. A Morte é muito ciosa e profissional, mas hoje o tempo é pouco até pra ela. Por isto não é mais tão minuciosa conferindo detalhes de listas. Senão se atrasa e adeus metas.
Telina enfatiza a parte final e parece analisar o efeito de suas palavras sobre mim. Fico imóvel, fazendo a mesma cara sem parar. Ela se apossa da segunda garrafa de cerveja, a rejeitada, na qual preguiçosas gotículas de umidade haviam se condensado.
— Até agora só entendi que a Morte parece tão escrava do sistema quanto qualquer mortal do mundo corporativo. Creio que isto soa familiar pra muita gente. Mas e daí?
Ela procura um fósforo e ouço o chiado dele dando à luz uma nova chama. Ela acende o enésimo cigarro e traga a fumaça profundamente, como se a própria alma desejasse aquele prazer de nicotina e de outras milhares de substâncias, delícias cancerígenas que se instalam, a cada tragada, nos pulmões negros e talvez pútridos da mulher.
— Daí que a nossa morte hoje é despersonalizada, na morte somos quase todos iguais, mais iguais do que nunca antes na história deste mundo. A Morte hoje é bem burocrática, mas pelo menos é mais democrática. Muito diferente de outros tempos. Hoje a morte é tipo aquele médico que só olha papel e não o paciente, sabe? Ela vê a lista, vê um nome, a hora e o lugar onde irá capturar mais uma alma em sua caixa. Antigamente era mais pessoal. Hoje a Morte não conhece mais ninguém. Então ela cumpre sua meta diária, depois esquece. No dia seguinte o trabalho vai aumentar com certeza.
— Será que estou entendendo direito? A Morte está assoberbada de serviço. Esse é um ponto fraco dela? Você está sugerindo aproveitar essa brecha em alguma estratégia?
Ela deu uma risadinha abafada pelo estrondo de outro trovão. Um gato assustou-se miou rasgado em algum canto da sala.
— José da Silva não é um nome muito comum e, portanto, cheio de homônimos? - Ela pergunta apontando-me o indicador e o médio já com novo cigarro preso entre eles.
De repente, num estalo mental, percebo qual era o plano que ela sugeria. Demorei. O cérebro está meio anestesiado, meio lesado com tanta fumaça abafando meus neurônios.
— Ah, acho que entendi! No dia, hora e local, se houver outro José da Silva para morrer no meu lugar... A morte confere o nome, tem pressa pois está atolada de serviço, recolhe a alma que aparece, põe na caixa e segue em frente. Não confere cara nem crachá.
— Bem, a ideia é esta, é um plano. Não é lá uma perfeição, mas não tem plano B. Isso é tudo que você tem para o momento. – Ela diz com um sorriso malformado como se fosse efeito colateral de algum resquício de pudor.
— Vejo algumas dificuldades. Por exemplo, como fazer meu homônimo ficar lá, quietinho, no meu lugar só esperando a morte chegar?
— Isso aí é problema seu. O meu é dizer, o que até já fiz de graça, quem está envolvido. O onde e o quando é só o que está faltando. Mas como também já disse, vejo pessoas, vejo lugares e tempos.
— Fale-me então sobre os lugares e tempos.
— 100 mil reais - Diz Telina enquanto acaricia o gato preto que germinou subitamente do escuro e pulou no colo dela.
Por um instante fico analisando a proposta. Que chance tem disso dar certo?
— 100 mil reais em troca do que exatamente, dona Telina?
— Em troca das informações imprescindíveis pra você pôr em ação um plano louco qualquer, por sua conta e risco, claro. Te entrego o dia, a hora e o local registrados na agenda da Morte pra você morrer assassinado por seu grande amigo Bizarro. E só. E não é pouco.
Analiso as possibilidades.
— Então ficaria por minha conta encontrar meu xará de nome inteiro, o que é relativamente fácil. Além disso, colocá-lo na cena, no dia, hora e lugar certo. Talvez não seja tão difícil quanto parece. O difícil mesmo é que ele seja suficientemente parecido comigo. O Bizarro me conhece bem.
— Já ouviu falar de cirurgia plástica? – Ela brinca com a fumaça, enquanto deixa no ar outra sugestão mais volátil que os seus cigarros.
— Ótimo! Uma plástica fará do privilegiado mais do que um mero homônimo, fará dele meu sósia. Não sósia da cara que tenho hoje, claro. Sósia da minha antiga cara. O Bizarro não sabe que eu fiz uma plástica, isso eu garanto. Ainda bem que guardei umas fotos antigas. O idiota do Bizarro chega e confere a cara do meu dublê, vê a cara dele igual à que eu tinha naquele tempo e atira nele achando que sou eu. A morte recolhe a alma do infeliz na caixa e vai embora satisfeita. Eu e o Bizarro também. Depois, com calma, darei um fim naquele merda.
— Bingo! – Exclama a mulher.
— 100 mil e Telina revela tempos e lugares. – Ela insiste.
Põe as mãos cruzadas por baixo do queixo e em seu semblante dança uma expressão de expectativa pueril.
— Posso colocar uma pessoa com nome diferente do meu? Tem que ser homônimo?
— A Morte segue os nomes. Faz parte da magia, mas não pense que, por haver alguém com nome igual ao seu, no lugar que é o seu e na hora que é a sua, que isto garante ludibriar a Morte. Porém, se for alguém com nome diferente, aí sim, será inevitável que ela descubra a farsa, entende?
Fico pensando mais alguns instantes. Lá fora o temporal ruge com fúria cada vez maior.
Sorte que José da Silva tem que não acaba mais. Isto não é problema. A cirurgia também não é problema, tenho meus canais pra isso, mas colocá-lo na cena para enganar o FDP do Bizarro e, principalmente a Morte, isto sim, não é nada trivial.
Faço uma proposta:
— Cinquenta mil agora e cinquenta mil depois, topas?
— Nada mais justo. Fechado. – Ela aceita.
— É claro. Enquanto isso interceda a meu favor lá no espiritual. O plano precisa dar certo pra você receber o restante do dinheiro.
Preencho um cheque nominal e cruzado. Telina guarda entre os seios. Nem confere. Pega caneta e papel e escreve uma data, uma hora e um local. Olho o papel rapidamente:

— Local, Posto do Renato, só? – Indago preocupado com a possibilidade de existirem vários postos com este nome.
— Foi só o que vi na energia das suas mãos. Se tiver mais de um posto com o mesmo nome, sinto muito, não consigo este nível de discernir qual deles é. Mas tem alguns detalhes que consegui captar. Com eles você poderá localizar o lugar, eu acho.
— Hum, isto complica, mas que fazer?
— É o que temos para o momento... – Ela contemporiza.
Ela fornece os detalhes prometidos, depois despedimo-nos cordialmente.
Enfrento a chuva, o vento e os trovões. Sair da favela não foi mais fácil do que entrar. Rodei um pouco, mas achei o caminho de volta. No dia seguinte comecei a pôr em andamento o plano. Cirurgião plástico, achar o posto de gasolina, procurar um homônimo e tudo mais que fosse necessário.
***
José da Silva saia do banco quando foi sequestrado. Sequestro relâmpago, deu no noticiário da TV. Mas quando José acorda, sem saber os dias todos que se passaram, ele dormindo, sedado, de duas formas ele já não era o mesmo José de antes.
Primeiro, o seu rosto foi submetido a uma cirurgia plástica. Agora ele era meu sósia, até eu fiquei pasmo de ver como ele era a minha cara. Não a atual, claro. Era a cara exata que eu tinha antes de abandonar a vida de matador de aluguel. A cara que Bizarro conhecia.
Segundo, José recebeu uma dose de uma droga que o tornava um zumbi, mas podia fazer as coisas, obedecer como um robô aos comandos dados.
Hoje é o dia. É 11 de fevereiro de 2015. O Sol está rachando. Está um calor infernal. Faltam poucos minutos para as 13:31 e chego ao Posto do Renato supostamente só para abastecer o carro. Carro roubado e de placa fria.
Suando ao meu lado está o robótico José com a minha antiga fisionomia, cirurgicamente implantada em seu rosto, olhando para o infinito do outro lado do para-brisas, a boca abandonada meio aberta enquanto um fio fino de baba escorre pelo canto. Efeito da droga, mas não vai atrapalhar.
Acendo um cigarro e dou uma tragada. José esquece o infinito e vira lentamente a cabeça, fica me olhando, mudo, enquanto expiro uma longa nuvem de fumaça. É, voltei a fumar. Acho que foi o trauma de viver com a minha morte anunciada para breve. Nunca tivera antes tal sensação de impotência. Isso mudou as minhas perspectivas pessoais, parei de exigir demais de mim mesmo. Afinal a vida é tão boa e curta, não é?
Desço, dou a volta ao carro e, aproximando-me da janela, falo ao meu sósia artificial.
— Ok, parceiro, vamos, passe para lá, para o lado do motorista. Viu só, você está sendo promovido! Isso, mesmo, bom garoto. Fique aí, quietinho, viu?
José sósia zumbi obedece e arrasta-se feito uma lesma dopada para o lugar do motorista. Até aqui tudo bem. Aproxima-se uma frentista deliciosamente vestida de quase nada. Antes que ela pergunte ao zumbi, peço que complete o tanque com gasolina e saio em direção a loja empoeirada do posto, de onde poderei acompanhar os acontecimentos em segurança.
Não tiro o grande óculos escuro do rosto. Deixei crescer a barba e mudei a cor dos cabelos. Sinto-me ridículo dentro daquelas roupas completamente fora do meu estilo usual. Procuro disfarçar o modo de andar no meio da bagunça do lugar.
Era um posto bem decaído, tudo improvisado e precário. Não tinha câmeras de segurança. O cigarro que eu fumava estava no toco, esmaguei a guimba no chão. Era só mais uma sujeira entre tanta que já havia por ali.
Mecanicamente já procuro o maço de cigarros, mas só há um bolso vazio. Esqueci os cigarros e o isqueiro no banco do carro.
Posso ver bem o José zumbi figurante de motorista, a tampa do tanque de combustível aberta e a frentista que insere o bico da mangueira. Mesmo sob a coberta do posto o calor é intenso. O rosto da moça brilha e realça seus lábios rosados. Sua camiseta com a logomarca do posto está molhada de suor entre os seios. Um bafo de vapor de gasolina quase invisível escapa do bocal e dissipa-se no ar quente da tarde. Vai turbilhonando entre as bombas velhas e malconservadas.
Outro cliente estaciona sua moto na bomba ao lado. Deixa a moto ligada e, sem tirar o capacete, aguarda atendimento. Discretamente ele observa o Jose Zumbi. Presto mais atenção ao motoqueiro que não tira o capacete.
Nesse momento vejo algo inesperado que me dá um frio no estômago. José, meu sósia cirurgicamente preparado, havia acendido um cigarro e estava ao volante, fumando, o olhar perdido através do para-brisas, alheio a tudo que acontecia.
O cara desmonta da moto, dá alguns passos, saca um revólver reluzente, chamativo demais para um assassino de aluguel. Sem dúvida é o Bizarro, o mesmo jeito de andar, é ele, sem dúvida. Ele se aproxima da porta do carro e a frentista continua com a bomba no tanque, normalmente, sem dar-se conta do que está para acontecer.
— Pronto para morrer José da Silva, seu filho da puta? - Grita Bizarro e dispara. Dispara muitas vezes. Sinal que ele me temia ou me odiava muito. Conhecia o antigo parceiro, queria ter certeza que eu ficaria bem morto.
A moça do posto assusta-se com o grito e os tiros. Seus dedos crispam-se sobre o gatilho da bomba. No susto a frentista puxa a bomba que fica parcialmente inserida. A gasolina transborda com seus vapores alucinados dissipando-se pelos ares. A garota fica petrificada de medo, a gasolina derramando escorre voraz pelo chão, como uma serpente líquida, na direção da porta do motorista e também para uma fina brecha no chão, junto à bomba que zumbia injetando mais combustível volátil.
Bizarro é profissional. Verifica o resultado. Olha a cara de José ensanguentado dentro do carro e sorri de leve.
— Ora, ora, você não é tão bom, afinal. Na verdade, foi uma decepção. E agora, concorda que o Bizzarro é o melhor? – Ele diz enquanto levanta a viseira rapidamente para que a vítima em agonia o identificasse antes de morrer.
Satisfeito, guarda o revolver niquelado na cintura, ajeita o capacete na cabeça, monta na moto e desaparece por uma rua lateral.
Está dando certo – Eu penso – daqui a pouco irei comemorar. Depois cuido daquele miserável.
A moça continua paralisada e a gasolina transbordando, agora molhando copiosamente o carro e o chão. Os vapores saturam o ar aquecido. Próximo da frentista trêmula, de mãos crispadas à bomba com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos, uma velha e ignorada placa metálica e amarelada por pigmentos do tempo faz um alerta que ninguém se dá o trabalho de ler:
Atenção: Risco de explosão devido à presença de gases e produtos inflamáveis. Desligue o motor. Não fume. Não utilize telefones celulares. Devagar: Velocidade máxima 5 km/h.
Antes que eu me mova, vejo o braço esquerdo de José pendendo do lado de fora do veículo. Por ele escorre um fio de sangue. Entre os dedos está um cigarro acesso que vai lentamente escapando. Estupefato antevejo a desgraça que está para acontecer.
Infelizmente o cigarro cai através dos inflamáveis vapores da gasolina que, bem abaixo do braço de José, elevam-se veementes do chão. Antes que eu recupere a iniciativa, uma explosão tremenda destrói metade do posto, matando a moça instantaneamente.
Não tenho ideia de quanto tempo passou. Abro lentamente os olhos e vejo uma figura estranha, desfocada, cujo contorno deforma-se, tremulando. Ela avança através do ar quente dos rolos fumegantes em ascensão frenética entre muitos focos de incêndio espalhados sobre a destruição. Aos poucos meus olhos recuperam a visão. Sinto uma forte dor no peito e sangro muito. Agora posso ver com o máximo de nitidez possível. A figura é um homem branco, alto, magro, vestindo um elegante terno preto e chapéu da mesma cor. Apesar do calor, sua pele pálida parece fresca e suave. Na mão esquerda, ele carrega uma caixa, também preta, que segura firme pela alça. Ele tem na outra mão um maço de folhas de papel. Separa uma das folhas que tenta ir embora com a fumaça e o vento. Depois de dominar a folha rebelde e olhar brevemente os restos fumegantes dos cadáveres carbonizados da frentista e de José, ele risca alguma coisa no papel que apoia desconfortavelmente sobre a própria caixa. Em seguida vira o rosto na minha direção e sorri.
Agora compreendo quem é aquele homem. Na verdade, apenas parece ser um homem. É a Morte. Ele se aproxima para ver-me com seus olhos abissais. Não sei por que, mas tive a estranha sensação de que tínhamos algo em comum. Na verdade, eu sei. Um matador sempre reconhece outro. Forço um sorriso metade dor, metade bom humor. Tenho que aceitar os fatos.
— Cadê a sua foice? – Pergunto, golfando um pouco de sangue.
A Morte sorri, parece divertir-se com minha curiosidade irrelevante, principalmente naquela minha situação terminal.
— Para que eu ia querer uma foice?
— Você... não é a Morte?
— Ah, entendo. Você acha que eu saio por aí matando as pessoas a foiçadas, não é? Eu nunca matei ninguém. As pessoas morrem ou se matam. Eu não tomo de ninguém aquilo que nunca poderia dar...
Não posso deixar de perceber a crítica ao que eu era no passado.
... Questão de consciência, mas há quem não pense assim, concorda? – Indaga-me a Morte.
Fiz que sim com a cabeça, vesti a carapuça. Fui um matador de aluguel, tirei vidas, muitas vidas. Eu as tomei, mesmo sabendo que a vida é o valor mais sagrado. Mas nunca tive remorsos, não sinto nada. No momento final, parece que a proximidade da morte nos dá uma clareza, uma súbita compreensão das coisas. O que a Morte me disse tinha agora um sentido que antes nunca me passou. E a Morte, simplesmente, continua esperando tranquila, em pé, ao meu lado, a caixa pendendo em sua mão.
Deu tudo errado. O outro José morreu inutilmente em meu lugar. E eu vou morrer daqui a pouco, estou sangrando muito, estou mal mesmo.
A Morte não faz nada. Só espia meus últimos momentos de vida.
— O ... o ... que está ... esperando? – Pergunto.
— Obviamente você morrer, claro.
— Diga-me ... poderia mostrar-me ... sua lista?
Sem dizer uma palavra a Morte inclina-se e mostra-me o papel. Leio atentamente o que está escrito.

José da Silva e Rosa Primavera estavam ticados. Estavam mortos, suas almas já presas na caixa. Faço um esforço final e olho o meu relógio. Marca 13:30. Eu ainda estou vivo, mas sou o próximo na lista, sou o outro José da Silva, aquele no final da lista, abaixo da frentista Rosa. Vejo a hora da morte, 13:31, o que confere precisamente com a informação da vidente.
Então este era meu último minuto e posso agora compreender a ironia. Creio que ninguém pensou na coincidência de estarmos, tanto eu quanto o meu homônimo, José da Silva, ambos na lista da Morte, no mesmo lugar e quase na mesma hora do mesmo dia. Acaso? Ou nada é por acaso? Será que a vidente não sabia disso tudo? Estou morrendo, mas ainda tenho senso de humor. Ainda consigo achar graça na situação. De qualquer forma, no fim, o maldito cigarro acabou me matando. Parei de fumar quando perdi um pacote para um câncer de pulmão. O dono do pacote não quis pagar pelo meu tempo e despesas, então ele também virou pacote. Mas desde aquele dia comecei a considerar o quanto o cigarro devia estar minando a minha saúde. E eu sempre cuidei bem da minha saúde.
Vejo ainda uma das últimas imagens captadas há pouco, quando ainda dispunha de meus olhos físicos. A Morte ticando meu nome na lista. Depois, satisfeita, ela seguindo para seu destino levando nossas almas dentro da caixa. Meu corpo morreu, mas agora vejo, pelos olhos da minha alma, duas outras almas aqui comigo, encaixotadas: O outro José e a frentista Rosa Primavera. Em suas faces o estupor, a interrogação.
"Dia proveitoso", deve ir pensando a morte, satisfeita, enquanto caminha rumo ao próximo da lista, balançando a caixa como uma criança que balança seu brinquedo. E, dentro dela, nossas almas, impotentes, sacudidas de um lado para o outro, umas sobre as outras, embora a caixa esteja cheia de espaço.
— Ainda tem lugar para muitas almas aqui. Se você quiser, podemos dar-lhe uma carona. Aceita?
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